Dia 01 - Vida Amorosa
Sou homem Cis, 35 anos, gay “desde” os 23 anos. Nem sempre fui gay, não sou puro sangue 😅
(“desde” porque foi quando tomei pra mim a sexualidade como aspecto da minha personalidade. E tem sido bem libertador agir assim desde então. Não no início, que é bem péssimo, mas a jornada foi bem interessante.)
Houve um tempo em que eu realmente acreditei que fosse hetero e passei por algumas saias justas durante esse período. Lembro de um namorico de infância com Suzana. Filha de Lila, a cabelereira do bairro. Não sei como, quando e porquê, mas tivemos uma história a ponto de trocarmos presentes. Até hoje uso a carteira que ganhei dela com ECO 92 bordada. Não como minha carteira principal, mas para guardar meus cartões de fidelidade antigos. E que eu tenho até que jogar fora.
Depois de Suzana, há um salto temporal. Andresa entrou na minha vida como a filha dos vizinhos, esses vizinhos ficaram amigos dos meus pais e eles tinham a clássica brincadeira de adultos de arranjar namoros para os filhos. Namoros heterossexuais, lógico! Mas nem fluiu. Eles colocavam a gente pra dançar valsa, quadrilha, qualquer oportunidade de encangar a gente um no outro era aproveitada. Deu em nada. Virei padrinho do filho dela porque viramos melhores amigos. A ironia do destino é que eu comecei a ficar com meninos e ela foi uma das primeiras a saber. Eu ainda me dizia bi, mas já sabia que era bicha mesmo. Ela, depois de mãe, ainda teve alguns relacionamentos, mas hoje é lésbica e com orgulho. Banco de couro, buzina e óleo diesel nunca mais saíram dela.
Aos 15 anos, num show de Capital inicial, tive meu primeiro beijo real. Adriana, uma ‘prima’ de Andresa. Nem sei mesmo se são primas, mas havia alguma ligação entre as famílias delas. Tanto que o pai de Andresa nos levou a esse show. Meu primeiro show, inclusive. Beijar Adriana foi uma sensação estranha. Não lembro de ter sido algo apoteótico ou que tenha me despertado algo a mais. Foi bem... meh...
Daí pra frente não lembro mais da sequência das meninas que beijei. Lembro de uma amiga de Carlinha, uma ‘roqueirinha’, que nem sei o que o destino fez dela. Lembro de uma menina em Tamandaré, do interior. Essa, a gente ainda se encontrou no shopping Boa Vista, mas foi bem estranho também. Na praia ela parecia ser mais nova, no Shopping não era bem como eu me lembrava. Deu em nada de novo. Vieram mais outras, mas nenhuma de quem eu lembre o nome ou origem.
Durante a faculdade, no período do estágio, teve Luciana. Hoje eu penso que éramos um casal sem sermos um casal. A gente trabalhava junto, mas nas festas era que a coisa esquentava. Eu acho até que teve alguma coisa da gente tirar um sarro pesado, mas não vou entrar nesse tema não porque eu não lembro direito.
Durante a faculdade também teve Tati, aluna de
psicologia. Se dizia bissexual, vinha de uma história com Karina, que já tinha
ficado com Tati, que estudava comigo, e com Flávia, com quem eu viria a ter um
namoro rápido. Tati-psicóloga era a típica menininha zona sul: descolada,
tatuada, bebia, fumava, piercing no nariz, praieira, fumava maconha e beijava
meninos e meninas. A personificação da libertação que eu sempre quis ter e não
sabia como. Acredito que elas (Tati psicóloga, Tati, Karina e Flávia) tiveram
uma parte interessante nesse meu florescer pra essas coisas. Foi uma forma
segura de conhecer cada aspecto desses. Minha história com Tati psicóloga
acabou quando ela decidiu ir ver um jogo do Brasil sozinha sob a justificativa
de que precisava de um tempo pra ela. Se lascou! Eu, desprendido, fui atrás de
Tati, Karina e Flávia ver o tal jogo em um bar lá perto do Salesiano e deixei
Tati-psicóloga na mágoa. Ela queria mesmo era fazer um joguinho pra que eu
corresse atrás, mas... Eu queria era a farra, não o estresse. Daí terminou. Com
ela era interessante porque eu já tinha inclinação mais forte para ficar com
meninos, mas até gostava de ficar com ela.
Logo em seguida veio Flávia. Amiga de Tati-psicóloga, tinha uma quedinha por Karina, mas acabamos namorando. Quatro meses. Ciumenta, indecisa, amava cerveja e cigarro. Era engraçada, inteligente e, sempre que desse, transávamos. Lembro de uma festa muito boa no salão de festa do condomínio. Se aquele banheiro falasse... TODOS da festa ‘deram uma voltinha’ naquele banheiro. Os pais dela têm uma gráfica e mudaram de Santo Amaro para a Várzea. Eu, sem querer, entrei nela e sem reação perguntei por Flávia. O pai disse que ela não ia gostar de saber que eu apareci. Fiquei chateado no dia, mas no mesmo dia entendi o porquê e acho uma pena. A gente não controla o destino, mas poderia retardá-lo. Comecei a namorar Flávia em 2006, logo após a parada gay na Conde da Boa Vista, centro da cidade. Ela já sabia que eu ficava com meninos na época e mesmo assim aceitou. Conta e risco, né?
Depois dela veio Deborah. Um ano e meio de namoro. Ela quem pediu. Em 2007 iniciei as aulas de teatro na faculdade. Havia um núcleo de cultura e, entre as atividades, teatro. Sempre quis fazer, mas meu pai não deixava e pra minha mãe era uma dívida a mais. Não fiz. Com a oportunidade de fazer de graça na faculdade, fui fazer. Ainda em 2007, em alguma apresentação em conjunto música e teatro, conheci Deborah. Conversamos, inclusive éramos do mesmo curso, mas nunca havia reparado nela lá. Nem no corredor, nem no núcleo de cultura. Mais uma vez, não sei como e nem quando, começamos a ficar. Como nos víamos todos os dias, as ficadas viraram namoro. Doze de junho de dois mil e sete, eu acho. Fui contar e não sei mais onde ela fecha. No terraço da FAFIRE ela me pediu em namoro. Deborah vinha de uma criação rígida de uma mãe machista. Então, onde ela pudesse ter uma vivência que fugisse desse padrão, era uma aventura. Depois de termos começado a namorar, ela soube que eu já tinha ficado com meninos e até já ter fumado maconha. Ela enlouqueceu no ‘bad boy’ (😂) Com ela tive dias bons. Foi comigo que ela teve a primeira vez. Só não houve outras. Ia tudo bem, até ela dizer que faria vestibular para música e, passando, ELA iria tentar o intercâmbio para os Estados unidos porque isso seria bom pra ELA. E nesses planos dELA, eu nunca entrava. Inconscientemente, eu nunca entrava. E aí foi só ladeira abaixo. Eu ainda fazia teatro com a mesma professora e naturalmente nos aproximamos. Tínhamos idade próximas e pensamentos semelhantes. Deborah ficou com ciúmes da professora e achou que estava sendo traída. Eu odeio injustiça. Se tivesse traído, teria dado um jeito de contornar, mas não traí. O celular descarregou e fiquei incomunicável. Naquela época não tínhamos esse hábito de andar com o carregador na bolsa, carregávamos o celular em casa e saíamos.
O namoro acabou. Voltamos por mais um mês.
Acabou de novo.
Hoje ela vive nos Estados unidos, casada.
Para falar dos meninos é preciso voltar mais um
pouco no tempo. Ensino médio. Foi no primeiro ano do ensino médio que conheci
Rodrigo. Novato. Cheio de piercings, roqueiro, calça folgada e rasgada atrás na
parte próxima ao tênis. Mal encarado, cara fechada, sentou lá atrás no canto da
parede. Um escudo maior que ele. Gay. Ou melhor, Bi. Gostava de Christina Aguilera,
Britney Spears, Spice Girls, Alanis Morissette e Placebo. No primeiro ano, era
aluno problema. Geralmente envolvido nos problemas da sala como causador deles.
No segundo ano, nos contou que era gay. Já sabíamos, lógico. Devido a esse acolhimento,
nos tornamos amigos. Não só eu e ele, mas eu, ele e outras três meninas. Amigos
até hoje. No terceiro ano, já vivendo sua sexualidade, Rodrigo já era muito
seguro de si, inclusive com atitudes de enfrentamento a quaisquer piadas
homofóbicas. Quando no tempo do cursinho, dois mil e quatro, em uma festinha
pré-parada gay, ficamos. E ficamos. E ficamos. Pouco tempo depois, até
transamos. Ele foi o primeiro cara que eu me envolvi. Sorte a minha.
Depois dele vieram alguns outros, em festas, amigos de amigos, e tem dado mais certo do que quando “eu era hetero”. 👀
O meu primeiro ‘namorado’ foi Tony. Aluno de história da UNICAP, estagiário da escola onde eu trabalhava, a quem eu dava carona todo fim de tarde quando ia para a faculdade. Tony é uma boa memória afetiva (talvez eu que não seja uma pra ele). Foi com ele que eu mantive um relacionamento de idas e voltas, mas onde eu pude deixar fluir quem eu era e estar com quem eu queria onde eu quisesse ir. Terminei porque na época ele estava desempregado por um erro dele e já fazia um tempo em que nada mudava. O ápice foi quando o irmão caçula dele, que havia sido pai recentemente, deu um dinheiro pra ele. Na minha cabeça isso não fazia, e não faz, sentido. Hoje ele trabalha na Caixa cultural do Recife antigo, sempre se envolvendo em algum mal estar gerado por ele mesmo.
O segundo namorado, dessa vez namorado mesmo, foi Diôgo. Três anos. Diôgo é gente boa e bonzinho demais. Arquiteto, mestre em Desenvolvimento urbano, não trabalhava quando nos conhecemos e continua a não trabalhar quatro anos após terminarmos. Com ele dei um passo a mais e bem mais largo na vivência da minha sexualidade. Dormir na casa dele, ele dormir na minha, viajarmos juntos, sairmos juntos, comermos juntos. Conviver com ele é bom. Só não dava pra viver com ele e ter que levar a mãe dele junto. Pra mim, ela é a âncora que não deixa ele se desenvolver. Diôgo poderia dar aula em curso técnico, em ensino superior, criar um curso de desenho à mão livre, produzir os próprios desenhos, muitas coisas. Mas não faz. Timidez? Talvez. Falta de um empurrãozinho? Com toda a certeza.
Desde Diôgo, não namoro mais. Quatro anos.
Depois dele, tive um rolinho com Rodrigo. Aí
sim era bom. CO-MO-E-RA-BOM! Rodrigo é de teatro, artista, desprendido.
Desprendido... Eu queria, ele queria, mas ele não queria sempre. Maltratou
demais esse coraçãozinho. Hoje ele tá bem com o namorido dele. Passou pro IFPB,
em Patos. Vão ser felizes.
Diel, artista plástico. Delicioso. Fala bem, inteligente, engraçado, limpo, bem vestido, malha, beija bem, transa bem. A melancolia de quem vive só é que às vezes pega pesado com ele. Fora isso, é muito gente boa.
Hoje, eu estou meio envolvido com Higgo. Bacharel em direito, bancário do Banco do Brasil, pai de pet. Higgo apareceu na minha via app. Inventei de baixar um pra dar uma espiadinha e olha onde eu vim parar... Conheci Higgo em janeiro de dois mil e vinte, daí até março, mais ou menos, a gente foi seguindo, mas veio a pandemia e tudo desmoronou. Ele tinha uma gata adoentada, teve a pandemia, ele veio de um relacionamento que não acabou bem, uma confusão só. Ajudei até onde deu, inclusive financeiramente na vakinha para o tratamento da gata. Ela morreu, ele ‘surtou’, a gente ficou sem se falar e agora, em maio, eu acho, de dois mil e vinte e um, ele veio puxar conversa novamente. Nos vimos, conversamos, e foi até melhor do que eu esperava. Houve pedido de desculpas, mas ao telefone. Ainda espero que seja feito olho no olho.
Acredito que essa volta e reconhecimento dele sejam
mais para que ele fique bem consigo do que por reconhecimento de que fez muito
mal a alguém que não merecia.
Se houver interesse da parte dele em retomar algo, que seja após uma conversa adulta em que ele me fale o que ele sentiu e sente, mas ouça o que eu senti e sinto.
E que aquele ex vá embora logo. Não vai
rolar de estar com alguém que mora com o ex. 😒
Comentários
Postar um comentário