Dia 02 – Casa própria

Cresci em meio a um ideal de que na vida adulta teríamos certas posses, dentre elas a casa própria (ou sua própria casa). Tenho trinta e cinco anos e sempre entendi que era o “percurso natural das coisas” chegar uma certa idade e as pessoas possuírem seu local para morar. Grande ou pequeno, seu lugar. Mas não é bem assim.

Eu entendo que passar a morar em um lugar seu é devido a uma série de possíveis fatores: morar perto do emprego, casar-se, morar em outra cidade, dividir apartamento com alguém, estudar fora, entre outras razões que têm em comum a saída de casa por necessidade de não estar mais lá. Raras as vezes sair por capricho.

Meu irmão saiu porque casou. Higgo saiu porque quis morar mais perto do trabalho. Andresa saiu porque não dava mais para conviver com a família fazendo o contrário do que ela pedia. Aline saiu porque casou. Sérgio saiu de casa porque precisava da privacidade dele.

Observando esse movimento de saída de casa, é visível que nem todos saíram. Há muito mais os que permanecem e, devido à pandemia, até voltaram. A falta de trabalho fez com que o movimento de volta fosse maior ainda. E isso eu entendo. Mas para voltar é preciso ter saído. E eu não saí.

Esse movimento de querer sair vem da necessidade de ter meu lugar onde eu seja responsável por ele, que eu possa receber amigos, que eles possam dormir na minha casa, que eu possa comemorar datas com eles até o fato de assim, definitivamente, eu sentir meu desenvolvimento como pessoa. Eu moro há vinte anos no mesmo apartamento, no mesmo quarto, com uma configuração recentemente alterada, mas até uns meses atrás era tudo do mesmo jeito.

Observo muito, também, que não há uma força conjunta para que eu saia. O que deve ser bom. Se fosse tudo bem sair, eu acho, já teria rolado uma busca por apartamentos e localidades. Às vezes eu acho que é meio egoísta não me darem essa liberdade. Eu penso no futuro quando eu realmente estiver só, como será? Aí é que vamos atrás de um novo lugar? Com que forças se vai atrás de um lugar pra ficar quando isso poderia ter sido resolvido há algum tempo atrás?

De verdade, eu me vejo numa posição sempre de apoio e nunca de destaque. E sempre foi assim. A ponto de eu sentir pequenas culpas por estar fora quando eu realmente preciso estar fora, principalmente por lazer. Eu brinco dizendo que, desde que comecei a trabalhar, ninguém paga nada pra mim. Desde que comecei a dirigir, ninguém me dá carona. E é verdade! Não lembro do dia que alguém disse “vou passar aí e te pego”, “deixe isso pra lá, eu pago”. Não lembro. Por outro lado, lembro inúmeras vezes em que eu ouvi “tu passa aqui e pega a gente” ou “deixe que ele paga”.

Toda família tem problemas. TODA! E eu não consigo enxergar qual é o daqui de casa. Eu sei que eu sou filho de uma mãe que é boa pra todo mundo de fora e pra dentro a gente não tem luxos. A gente não viaja, a gente demorou juntando dinheiro pra comprar o carro novo, a única grande viagem que fizemos fui eu quem paguei com seis meses de antecedência. Ela me contou recentemente que, da pensão que ela recebe, parte vai para uma tia em Florianópolis e, recentemente, tirou um empréstimo para a reforma da casa de um tio em Caruaru. Em casa, uma dificuldade de juntar dinheiro para a compra do bendito apartamento novo.

Dela, a minha memória é sempre tirando de mim e dando aos outros. Qualquer coisa! A minha primeira lembrança foi de um boné comprado num show de Xuxa na Ilha do retiro. Branco, com a aba vermelha e o autógrafo impresso de lado. Criança, eu adorava Xuxa e ela deu meu boné. Sob a justificativa de “tu nem usa mais”, ela vez em quando dava algo meu. A última coisa foi nessa semana a máquina polaroid que eu usaria nas férias com os locais certos para fotografar. Ela me fez dar à minha sobrinha que faz catorze anos em agosto próximo. E tal qual a mãe de criança, ela disse que depois a gente volta na loja e compra outra pra mim.

Eu não vou voltar lá e comprar. Ela vai. Se for...

Com o meu irmão, ela compra bebida, faz garrafa decorada, vai até ele pra ter a atenção dele. Ele pouco vem, a gente é quem sempre vai. Passei um mês fora viajando. Ele não veio um dia. Ela fica triste e eu sei que fica. Mas ela segue presenteando, indo, chamando pra sair. Não chega a mendigar atenção porque eu dou logo um fecha e ela se orienta. Não lembro do dia que ela foi chamada a fazer algo. Pra ele, sempre há um agrado. Pra mim, a última coisa foi o suporte de notebook que eu uso e porque disse que compraria. Nem pensou no que me agradaria, foi no que eu disse que compraria. Inclusive, é possível pensar que ela não me nota a ponto de saber do que eu gosto ou não? Será se ela saberia dizer meus gostos? Será se o fato de agradar tanto as netas vai além do fa
to de serem netas, mas na verdade ela quer mesmo é agradá-lo?

Eu me envergonho em dizer que ainda moro aqui. Trinta e cinco anos, graduado, pós-graduado, mestre, concursado, dois bons empregos. E ainda moro aqui. Há trinta anos no mesmo lugar, mudando só de prédio. Vinte anos no mesmo apartamento, no mesmo quarto. Tanta coisa já avançou e tantas outras poderiam avançar, mas daqui eu não consigo ver. Eu não consigo nem me ver.

Mas também sigo na ilusão de que meu dia chegará. E que, assim como meu irmão teve, eu vou ter alguma ajuda para conquistar o meu. Sozinho tá difícil, mas nem que seja sozinho eu vou conquistar.

 

Meu dia chegará.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Dia 10 - DIAS DOS PAIS sem paz

Dia 09 - Relação com o dinheiro

Dia 04 – Estudos